hoje quando vinha no metro, encontrei uma menina. lá estava ela, encostada a um banco. parecia sozinha, parecia triste, parecia esquecida. entrámos as duas na mesma carruagem e ela sentou-se, ligou o mp4 e reparei que entretanto uma lágrima lhe caíra pelo rosto abaixo. não foi só uma afinal, foram lágrimas sem fim que lhe escaparam. fiquei preocupada e como tal, fui lhe perguntar o que se passava. da sua boca só saiu uma palavra: impossível.
fiquei a pensar no que dissera... impossível? pela minha experiência de vida, sabia de que nada era impossível, nada. passaram-se uma, duas, três estações até lhe olhar nos olhos outra vez, ou pelo menos, tentar. pois ela encostou-se contra o vidro a olhar para as linhas que se seguiam. não percebi, o que é que ela quereria dizer com impossível? mas ela, só chorava, nada mais. a certa altura, sentei-me ao lado dela e abracei-a. é muito bom ter alguém quem abraçar quando nos sentimos mal, ainda para mais, um abraço de uma aparente desconhecida, como eu. passaram-se meros segundos até ela me murmurar ao ouvido: porque é que a vida tem de ser tão difícil?
tentei relacionar o "impossível" com o que ela acabara de dizer... algo era difícil, ou ainda muito mais que difícil, era impossível. algo que acabara de acontecer era algo que nunca mais se repetiria, pensei eu. para lhe confortar, sussurrei-lhe ao ouvido: tudo pode acontecer, tens de ser forte e nunca desistir, tens de superar as dificuldades de algo que parece ser impossível.
ela assentou o que disse e remexeu na sua mala pequena e retirou de lá um lenço de papel, o último lenço que tinha ou para ela, era só mais um. limpou as lágrimas, sorriu para mim e agradeceu. porém não ficou completamente "feliz". passaram-se de seguida duas estações e ela continuava pensativa. eu queria-a ajudar, mas não sabia como então contei-lhe uma história que já se tinha passado comigo, disse-lhe assim:
quando tinha mais ou menos a tua idade, fui viver para muito longe e apaixonei-me por um rapaz que vivia exactamente na mesma cidade que eu anteriormente. era DIFÍCIL estar com ele, só estive uma vez e não aproveitei bem o nosso tempo. pensava ser IMPOSSÍVEL de ter uma relação com ele. e várias vezes questionava-me o porquê de tudo aquilo, o porquê de isto ter acontecido... mas sabia que era ele quem eu queria e estava disposta a tudo mas era tão DIFÍCIL de manter uma boa relação... então aí percebi que nada mais havia por fazer, era mesmo um amor IMPOSSÍVEL. mas porém não o aceitava pois posso dizer que foi a pessoa que eu mais amei até hoje. por isso, se é a distância que te incomoda então não há nada mais a fazer, vive cada dia, um de cada vez, não apresses nada, chora tudo o que tens a chorar mas lembra-te de sorrir 60% do dia, pois tens o direito a ser feliz.
durante o meu longo discurso, ela parecia entender cada palavra que dizia, no sentido emocional. percebi que tinha acertado em cheio no alvo, era aquilo que lhe incomodava cada instante que mais uma lágrima caía, era isso mesmo. parecia ter milhões e milhões de perguntas na sua cabecinha, parecia estar a ser compreendida pela primeira vez. e, quase no fim da linha do metro, ela exclama bem baixinho:
existem sempre duas opções: habituar-me a ser fraca ou aprender a ser forte, desculpa mas ainda não estou preparada para enfrentar isto, escolho a primeira.
realmente, ela tinha toda a razão. ela parecia ama-lo de verdade. mas era impossível. o seu coração parecia não ser a primeira vez que se partia assim, nem a segunda ou a terceira.
chegámos ao fim da linha e tivemos de sair, tal como todas as outras pessoas dentro daquela carruagem. saímos e ela tomou um caminho e eu outro, em direcções contrárias. de repente olho para trás para assegurar de que, de segurança exterior, estava bem. não estava definitivamente bem. corri para ir ter com ela, senti como se fosse uma obrigação estar a lado dela, não sei... lá estava ela sentada contra um poste de electricidade, esquecida. ela queria a sua vida de volta, ela queria viver como qualquer outra pessoa que esteve ali, em pé ou sentada no metro. ela queria ser forte, como eu. abracei-a mais uma vez e ela disse-me, bem baixinho: obrigada, mas sei que, por mais que lute para ter o que quero, mais me "enterro". que se percebo que me apaixonei novamente, sei que logo a seguir vem o sofrimento, seja por que razão for. este foi só mais um grande obstáculo na minha vida que me deitou a baixo, e não me quero mais levantar, estou cansada.
era eu, a que ia para o lado direito e esquerdo. era o eu forte, e o eu fraco. ali, frente a frente. era o eu forte a consolar o eu fraco. o eu forte ia seguir com a sua vida normal e o eu fraco ia ficar ali sentado, sem mais nada fazer pois sabia que qualquer coisa que fizesse, se magoava. quero ser o eu forte, mas não consigo, nunca consegui.

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