sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O olhar do passado


nas noites frias e calmas, sentava-me na minha cama a contemplar, não as estrelas que reluziam lá fora mas, a parede que limitava o meu olhar. era branca e vazia, tal como me tinha tornado. eu, pálida por fora e vazia por dentro. e assim se passaram dias e até semanas, até me questionar sobre essa falta de recheio de felicidade. pois para mim, a felicidade é tal qual um recheio, é algo que ao abdicarmos ou simplesmente não o encontrarmos que perdemos tudo aquilo que segura os nossos sorrisos, e fundamentalmente o nosso olhar. e aqui está, já não era a felicidade que me puxava para o centro da terra, era de facto o meu olhar porque ao deparar-me com tristezas, tentava fechar os olhos e prometia nunca mais os abrir mas tudo voltava ao mesmo, como um ciclo. queria adormecer e acordar quando, além da gravidade, a felicidade me alcançasse. difícil essa tarefa. então, ao fechar os olhos sentia-me mais leve, mais abstraída do mundo, mais livre. e era isso mesmo que ainda me mantinha na superfície terrestre, penso eu.
e aqui a verdade se impõe, estava perdida, completamente desnorteada quanto à minha vida. algo que certamente não desejo voltar a repetir. e apesar do meu olhar ter sido intensamente roubado, ninguém reparava excepto, claro, as minhas mãos. se além de escrever, elas pudessem falar, então acho que tudo seria mais fácil. de uma forma ou de outra, aguentei e estou viva e, tal como o ditado nos diz, depois da tempestade vem a bonança.
e se pudesse ter fugido simplesmente? não.
agarrar o que me fazia sofrer assim? sim.
porquê? porque sofrer é a única forma de aprender, o ser humano desconhece outra, simples.
continuava vazia, ninguém me preenchia. quem eu queria não podia e quem me queria como um meio eu questionava-lhe os fins. eu sou o fim e não o meio. creio que renasci desde que me apercebi que sou um ser humano e que na realidade sou algo que se alcança com esforço e com amor. sou humana tal como os outros, estranha ou não, sou-o. e acho que, ao se pensar ser-se ser, é-se ser pois somos racionais. alguns. poucos. meia-dúzia talvez. ficamos por aqui...
não queria fugir, não queria ficar. das duas maneiras não seria completamente feliz. faltaria sempre algo, além de comida e de oxigénio, faltaria a minha outra metade. como um ser não existe sem um pulmão ou um pianista sem uma mão, eu não existia sem ti. seria o ser humano assim tão melancólico quanto isto? se "não", é um "talvez" quanto a mim.
continuava a querer sorrir mas, tal como o rio que não pára de correr, a minha visão não mo iria deixar. censurava por inteiro tal forma de alegria. porquê? coração, estúpido e revolto, meigo e sensível, é de extremos.

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