não gosto do adeus, porque se pensarmos bem, o que fazemos depois do adeus? sentamo-nos, ligamos o mp3 e choramos, tentando sempre não fazer com que o choro se revolte para o nosso exterior, porque aí seriamos fracos, e acho que ninguém quer ser fraco. e o comboio mostra-nos a visão do "depois do adeus", o que não é nada bom, pelo menos para mim. não gosto de sair da minha cidade e desatar a largar lágrimas de saudade após ver o meu verdadeiro mundo ao qual eu pertenço.
não gosto das plataformas, é só a mim que dá vontade de voltar tudo atrás e correr atrás daquilo que queremos e não irmos para onde temos de ir pois não o desejamos? e depois ainda vêmos escrito nas linhas da nossa viagem "PERIGO DE MORTE", até essas linhas prevêem essa dor, são inteligentes mas estúpidas, pois levam-nos para onde não queremos.
não gosto de ver aquele "mata-tempo" ao pé do relógio na plataforma, anaquila mesmo os minutos que ainda temos para voltar atrás. pensamos e voltamos a repensar até chegarem os últimos 50 segundos, e o que acabamos por decidir? entramos, pois o próximo comboio ainda demora mais alguns adeus, e quanto mais adeus, pior... depois também penso "faltam 50 segundos! despacha-te e rapta-me daqui para eu perder o comboio de proprósito e cair nos teus braços." porque eu quero ficar. eu sempre quis ficar.
não gosto de passar naquelas portas, parece que dividem os dois mundos, aquele queremos e não queremos. e lá vou eu, do mundo que quero para o que eu não quero. e porque sou levada a fazer isso? nós deveriamos poder ficar onde queremos ficar, sem ligar a outras questões adversas. porque o que importa mesmo é "quem" e "onde", e se "quem" és tu e "onde" é aqui, porque haverei de partir? nunca fez sentido, nunca fará. questões demasiado simples para o complexo cérebro humano, enfim.
não gosto nada do adeus, e não gosto do destino, não gosto de me sentar e ver a minha vida a passar-me ao lado, e as minhas coisas e as minhas pessoas. não gosto dos ares que não me pertencem, porque literalmente, não me pertencem. não gosto de chegar a "casa", porque é do lado oposto das coisas, e não tem de ser tudo ao contrário, eu só preciso do certo.
só preciso que matem o tempo antes que o tempo me mate a mim. e o destino e os assentos de pele esquiça, e aquela visão real das coisas, e as janelas com a transparência da ausência do nosso mundo sem fim e do aparecimento daquele "mundo estranho", e as pessoas que não partilham do mesmo e nos fazem ficar sozinhos naquela indesejavel viagem no tempo. só preciso que me tirem aquele gesto do adeus, que me tirem tudo, porque se não o fizerem... eu não irei querer voltar. eu não quero voltar e ver tudo de novo, porque o que lá ficou, ficou.
prefiro ir para nenhures, obrigada.

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