quinta-feira, 21 de março de 2013

Estação de comboios - Nenhures


e se os comboios não tivessem destino? assim quando nos despedissemos de alguém importante na estação, não lhe poderiamos dizer se seria longe ou perto. sempre podia ser para nenhures...
não gosto do adeus, porque se pensarmos bem, o que fazemos depois do adeus? sentamo-nos, ligamos o mp3 e choramos, tentando sempre não fazer com que o choro se revolte para o nosso exterior, porque aí seriamos fracos, e acho que ninguém quer ser fraco. e o comboio mostra-nos a visão do "depois do adeus", o que não é nada bom, pelo menos para mim. não gosto de sair da minha cidade e desatar a largar lágrimas de saudade após ver o meu verdadeiro mundo ao qual eu pertenço.
não gosto das plataformas, é só a mim que dá vontade de voltar tudo atrás e correr atrás daquilo que queremos e não irmos para onde temos de ir pois não o desejamos? e depois ainda vêmos escrito nas linhas da nossa viagem "PERIGO DE MORTE", até essas linhas prevêem essa dor, são inteligentes mas estúpidas, pois levam-nos para onde não queremos.
não gosto de ver aquele "mata-tempo" ao pé do relógio na plataforma, anaquila mesmo os minutos que ainda temos para voltar atrás. pensamos e voltamos a repensar até chegarem os últimos 50 segundos, e o que acabamos por decidir? entramos, pois o próximo comboio ainda demora mais alguns adeus, e quanto mais adeus, pior... depois também penso "faltam 50 segundos! despacha-te e rapta-me daqui para eu perder o comboio de proprósito e cair nos teus braços." porque eu quero ficar. eu sempre quis ficar.
não gosto de passar naquelas portas, parece que dividem os dois mundos, aquele queremos e não queremos. e lá vou eu, do mundo que quero para o que eu não quero. e porque sou levada a fazer isso? nós deveriamos poder ficar onde queremos ficar, sem ligar a outras questões adversas. porque o que importa mesmo é "quem" e "onde", e se "quem" és tu e "onde" é aqui, porque haverei de partir? nunca fez sentido, nunca fará. questões demasiado simples para o complexo cérebro humano, enfim.
não gosto nada do adeus, e não gosto do destino, não gosto de me sentar e ver a minha vida a passar-me ao lado, e as minhas coisas e as minhas pessoas. não gosto dos ares que não me pertencem, porque literalmente, não me pertencem. não gosto de chegar a "casa", porque é do lado oposto das coisas, e não tem de ser tudo ao contrário, eu só preciso do certo.
só preciso que matem o tempo antes que o tempo me mate a mim. e o destino e os assentos de pele esquiça, e aquela visão real das coisas, e as janelas com a transparência da ausência do nosso mundo sem fim e do aparecimento daquele "mundo estranho", e as pessoas que não partilham do mesmo e nos fazem ficar sozinhos naquela indesejavel viagem no tempo. só preciso que me tirem aquele gesto do adeus, que me tirem tudo, porque se não o fizerem... eu não irei querer voltar. eu não quero voltar e ver tudo de novo, porque o que lá ficou, ficou.

prefiro ir para nenhures, obrigada.

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